Penso que escrevi este poema
com o coração numa noite de insônia
Delmar Rosado
Retalhos de Vida
Você ...
Já mandou homens combater
Sem saber se voltariam?
Você ...
Já passou noites sem dormir
Pensando em pais, filhos, netos,
irmãos e companheiros
que mandou p’ra guerra
sabendo que poderiam morrer?
Você ...
Já alguma vez
Arriscou seu emprego
P’ra defender amigos ...
Caluniados ...
E denunciados injustamente?
Você ...
Já se viu transformado em emigrante ...
Exilado ...
Taxado de bandido ...
Depois de anos combatendo
A defender a Pátria ?
Você ...
Alguma vez temeu
Que ao voltar à sua Pátria
Fosse preso ... sem saber porquê ?
Você ...
Depois de conquistar um lugar na vida ...
Já se viu
Derrubado ...
Caluniado ...
E só ...
Sem dinheiro
Sem trabalho ...
Num País estrangeiro ...
Sem um lar ...
E uma família a sustentar ?
Eu ...
Já passei por isso tudo ...
... E estou vivo.
Casa do Mar
6.12.99  |
DESABAFOS
Cheguei ao café. Numa mesa um velho amigo que já não via há longos anos, estava sentado. Aproximei-me, cumprimentei-o e a tradicional pergunta:- Então? O que é feito de ti nestes anos todos que não nos temos visto?
"Sabes Delmar, após o 25 de Abril e de terem acabado com a policia a que eu pertencia, aposentei-me e deixo-me ficar em casa a maior parte do tempo. A incompreensão das pessoas em relação ao meu antigo trabalho me deixa triste e é melhor eu ficar em casa brincando com os netos do que vir para o café e, por vezes, ouvir algumas piadas de gente que julga uma coisa e nunca soube o que na realidade era o meu trabalho. "Tu, que de vez em quando escreves umas coisas, senta-te ai e ouve lá algumas histórias que te vou contar para que os amigos saibam, na verdade, o que era a coisa. Como tu sabes eu acabei em Angola e fui para a "fábrica" para não ir para Angola e vou explicar-te como.
Eu estava já com 24 anos e no final dos 3 anos de serviço militar obrigatório na Força Aérea quando começaram a falar em mobilização para o Ultramar. Eu que não tinha interesse algum em continuar como cabo por mais 4 anos em qualquer colônia e sabendo de antemão que não havia vagas para promoção no quadro, comecei a ficar preocupado. Um velho primeiro sargento veio então falar comigo e me disse:- Oh rapaz é a coisa mais fácil do mundo tu escapares da mobilização. Tu vai lá à António Maria Cardoso, inscreve-te e eu mexo os cordelinhos para te chamarem para lá. E assim foi. Passados que foram não mais de 30 dias de me ter inscrito já tinha sido chamado lá e sabia que seria desmobilizado e para o curso.
Claro que fiz o curso, passei e segui a rotina de todo o mundo com estágios nos diversos serviços onde mais tarde seria colocado.
Nos finais de 1960 muita falta de pessoal e eu, embora agente auxiliar acabei sendo colocado no Aeroporto de Lisboa e começo a prestar serviços no guichet dando entrada e saída aos passageiros.
Uma noite, no turno das 24 às 8 da manhã eu chego ao Aeroporto e começo a ouvir um zum zum, embora ninguém me tivesse avisado de nada, que o Benfica ia embarcar para Viena e de que o Eusébio (que embora sem ainda jogar acompanhava a equipe em todas as deslocações) não poderia sair do Pais porque não teria autorização da mãe. (o passaporte de Eusébio tinha a linha do pai em branco e filho de Maria Flora). Quando o Cabrita chegou ao balcão com os passaportes, eu fui despachando e chegou ao do Eusébio que, de fato, não tinha ainda 21 anos e só poderia sair do Pais com uma declaração em papel selado e a assinatura da mãe (ele não tinha oficialmente pai) reconhecida no notário,o que não sucedia.
Mas, no passaporte do Eusébio constava na 1ª. pagina uma nota com chancela do Governador de Lisboa dizendo que ele poderia sair do País sempre que integrado na caravana do Benfica e eu... uma carimbadela e boa viagem rapazes do meu clube. Sai do serviço às 8 da manhã fui para casa, tomei banho, fui dormir um pouco e, mal tinha me deixado dormitar, toca o telefone e um chefe, chamado Costa, diz para eu ir com urgência falar com um Inspetor chamado José, sportinguista ferrenho. Claro que calculei logo que o problema se chamaria Eusébio e lá fui.
O Costa que era benfiquista dos quatro costados foi-me logo dizendo que o inspetor estava bravo porque o Eusébio tinha sido autorizado a sair e lá fui eu.
Entrei e diz-me logo o inspetor José: Ouça lá uma coisa? Como é que você deixa sair do Pais um menor sem autorização da mãe? 'Eu respondi-lhe:- Sr. Inspetor se ele fosse do Sporting, do Belenenses ou do Porto, eu também o deixava sair.
Ficou por isso mesmo para não te cansar com mais pequenos detalhes.Depois, tu sabes fui colocado numa fronteira aqui do sul, numa terra onde eu conhecia toda a gente.
Naquele tempo precisava ser preenchida uma informação moral e política de todo o mundo que concorria a um emprego púbico, que ia para o Curso de Oficial Miliciano, etc, etc. Era um pandemônio. Um dia chegou lá um pedido de informação de um moço da terra e todo o mundo o taxava de comunista. Eu perdia por 4 a 1 mas mantinha a minha verdade que sabia ser correta. Ele foi meu colega de infância, temos a mesma idade, conheço-o desde que nasci e nunca foi comunista.
Os meus 4 adversários garantiam que ele, por ser artista plástico tinha que ser comunista. Eu preenchi a informação, assinei e disse ao Chefe, mande que eu assumo. Acho que ele só soube disso depois do 25 de Abril.Depois do 25 de Abril ele leu seu processo e veio agradecer-me eu não aceitei os agradecimentos)
Para tirar o passaporte então era um festival. Havia um formulário com umas 50 perguntas que nós tínhamos que responder e justificar a quem, em nossa opinião fosse de conceder ou não passaporte.
Havia lá na terra um moço, um pouco mais velho do que eu e cujo irmão mais velho que trabalhava numa traineira, eu conhecia desde criança, que era conhecido pelas suas manifestações contra tudo e contra todos, logo, era comunista. Já lhe tinham recusado o passaporte por 3 ou 4 vezes quando chegou novo pedido de informações. Eu preenchi a informação e disse que era de se conceder o passaporte. Ele não era ativista e somente reclamava porque era um desempregado crônico e porque falava muita besteira não arranjava emprego e não conseguia o passaporte para emigrar.
De novo todo o mundo contra e a ameaça de que numa de suas saídas lhe cassariam o passaporte tão surpreendentemente obtido. Eu comecei a observar os movimentos dele e a ver como ele estava levando aos poucos a bagagem para a Espanha até ao dia em que ele foi embora quando consegui ser eu a carimbar-lhe o passaporte de saída e a dizer-lhe para que ele soubesse o que eu estava fazendo, “boa viagem". Acho que ele se ler a tua crônica se lembrará.(penso que ele já faleceu mas seu irmão deve se lembrar disto. |